• Romario Regis

Artigo - Vinícius Jr. marca o gol de São Gonçalo na Champions League

por Gustavo Gomes


Eram 58 minutos de jogo.


A bola estava sendo trabalhada no campo de defesa do Real Madrid, em mais uma tentativa de furar a marcação adiantada do forte time do Liverpool. Até que em 4 segundos, a bola encontra Casemiro no meio do campo, que levanta a cabeça e passa para o uruguaio Valverde, posicionado no lado direito do campo de ataque. Do outro lado do campo está um menino com a camisa 20. Ele corre com o olhar fixo na bola durante os próximos 6 segundos pelos quase 50 metros, aguardando ansiosamente o momento em que ela chegaria em seus pés.

O Stade de France virou o campinho do Mutuá, palco da escolinha do Flamengo, onde o Vini foi matriculado lá para os seus 6 anos de idade. Enquanto o Uruguaio Valverde corria com a bola pelo lado direito, Vini corre solto pelo lado esquerdo. Ele se esguia em silêncio, invisível, como se estivesse chegando em casa tarde da noite em uma rua transversal de São Gonça. Quando olha para frente, ele vê um corredor livre, sem nenhum defensor do Liverpool, que facilmente lembra uma avenida Presidente Kennedy depois das 22 horas.

Vini arranca. Corre como quem vê um ônibus da Coesa, que só vai passar na próxima hora. Corre como quem já correu, atrasado, para pegar o ônibus para Niterói, ou para não perder a carona improvisada, de São Gonçalo para a Zona Oeste do Rio. Era o trajeto que Vini precisava fazer desde pequeno para ir treinar. Uma distância que durava mais que um jogo de futebol.


Um segundo passa, o uruguaio Valverde chega, vê um Benzema marcado. O francês, em casa, tinha trazido a marcação com ele. É a hora que Vini muda o seu percurso. Muda como fez quando precisou sair de São Gonça e ir para a Abolição, na casa de um primo, onde poderia chegar mais rápido na sede do Flamengo. O fez como milhares de gonçalenses o fazem todos os anos. Ele dá três passos rápidos, como aprendeu a fazer na escolinha de futsal no canto do Rio, em Niterói, ou na quadra do Odete São Paio, no Colubandê.


Valverde chuta cruzado, Vini desacelera e se coloca exatamente na linha do zagueiro. Um centímetro a mais, o deixaria em posição de impedimento. Um centímetro a menos, poderia chegar atrasado na bola para o chute. São detalhes que só não são menores como as chances de um menino, como ele, chegar onde chegou. Mas Vini acertou. Sagaz como um bom gonçalense, venceu o Zagueiro desatento, usando aquela habilidade típica de ultrapassar o sinal de trânsito aberto. Talentoso, usou o que aprendeu para ir do Mutuá ao Flamengo, do Flamengo para o Real e do Real para a final da Champions. A bola desliza em um gramado liso, sem os buracos dos nossos campinhos como o do Marimbondo. Ele entra na pequena área, coloca os dois pés no chão e posiciona o seu corpo para um chute perfeito.

Ele toca o pé direito na bola e quando chuta, seu corpo vai direto ao chão, acompanhando cada milésimo de segundo até ela passar, sem chance de defesa, por um dos maiores goleiros do mundo. Ele olha sério, querendo ter certeza que fez tudo certo. A bola passa pela linha, mas ele permanece olhando. A bola toca a rede e ele permanece olhando. Só quando quando seu corpo toca o chão, ainda sem parar, ele se levanta e sai correndo para o lado esquerdo do gramado. Vini Jr. marca o gol da vitória, o gol da final da maior competição de clubes do mundo. Quando ele corre, ele beija a camisa do Real Madrid e aponta para o céu. Faz o número 1 com as mãos e cai nos braços dos jogadores reservas do Real.


Quando os primeiros jogadores o abraçam, vem chegando mais gente. Vem Marcelo, seu companheiro de seleção, vem Casemiro, vem o auxiliar técnico, todo mundo quer abraçar o menino do Mutuá. O canto esquerdo do campo do Liverpool começa a lotar e já são mais de 1 milhão de pessoas abraçando e comemorando com Vinícius naquele momento. É o meu abraço, que conheço o perrengue da mobilidade, é o abraço da Nathália, que se emociona em ver São Gonçalo na tv além das páginas policiais, é o do Mateus, que saiu de São Gonçalo para treinar voleibol no canto do rio, onde o Vini jogou, é o abraço do Diego, que já prepara a sua foto com o Vini para postar com orgulho, o abraço do Romario que já jogou futebol demais pelos campos da cidade, da Ella Fernandes, que canta hoje pro mundo, representando São Gonçalo, do menino que hoje tá começando nas escolinhas de futebol, do estudante que pega horas de ônibus para a faculdade, do lojista do centro, do trabalhador da rua da feira, da cabeleira, da dona Fernanda, do seu Vinícius José, do pessoal que fez vaquinha, que ajudou com carona. É o abraço da Vitória, do Eduardo e da Thamiris, é o da Débora, do Bruno e do Léo, da Giseli, da Rayssa, da Alice, da Clara, da Amanda… É um abraço de São Gonçalo todo. A praça Concorde, virou Zé Garoto, a Catedral de Paris, virou a igreja Matriz. São Gonçalo entra em festa quando vê um dos seus ganhando o mundo.


É verdade que São Gonçalo deu muito menos ao Vinícius Jr. do que ele nos deu. Ainda temos muito o que fazer para que um dia a juventude e as pessoas possam vir a agradecer à nossa cidade. Mas isso não impede de que a gente agradeça, comemore e, como povo, vibre e chore de emoção ao olhar para televisão e dizer: É o Vinícius! É gonçalense!



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